A Estranha Dízima de Randulfes

Devido aos bons préstimos de Randulfes ao serviço da coroa, foi-lhe concedido pelo Rei o lugar de Pampiloza mais os vales e montes circundantes, porém não ficaria isento de pagar ao tesouro uma dizima de 3 contos de reis todos os anos referente a tal terra, a pagar sempre no mês de Abril.
Mas os tempos mudaram e devido aos descobrimentos, muito da força útil de trabalho aventurou-se no mar espalhando o gene tuga nos 5 continentes, abandonando os campos e o seu cultivo. Tornou-se assim o país num deserto, restava apenas uma faixa entre o vale do Tejo e o Sado onde havia desenvolvimento com pontes estradas e portos, onde navios num imenso frenesim traziam ouro, especiarias e escravos, levando cereais e mão-de-obra qualificada, tal era a força da emigração que todos os primos de Randulfes (gente importante e empreendedora) foram para a América, por isso se chama à crise financeira que hoje por lá graça de “Crise dos Sub-Primos de Randulfes”.
A cosmopolita Lisboa dividia-se em duas ,uma com os seus sumptuosos palácios de fidalguia subserviente e parasitária dos favores do Rei, do outro uma cidade enorme e suja, com prédios de 6 e 7 andares todos amontoados e sem regras de saneamento ou de planeamento, a ladroagem, a prostituição e o caos urbano reinava, mas ali não se sentia crise pois sobejava ouro e pedras preciosas trazidos de África, Américas ou Índia. O que faltava mesmo em qualquer um dos lados era Pão, Vinho ou Azeite, tal tinha sido a purga das gentes do campo.
Randulfes, que era sábio e sagaz, pediu ao Rei para que a dizima fosse paga em bens alimentares em vez de dinheiro, e na mira de cativar famílias para o lugar, concedeu e sub-alugou vinhas, searas e olivais de Pampiloza, conseguindo assim fixar um conjunto de 100 famílias com a obrigatoriedade destas em Fevereiro e Março trazerem excedentes dos seus produtos agrícolas e encherem um tonel, uma pia e um arcão que ficariam no celeiro da casa de quinhentos que serviria para pagar a décima à coroa.
E os novos habitantes assim fizeram, cultivaram as terras e foram enchendo a pia o arcão e o tonel, até que no mês de Abril seguinte, Randulfes foi provar o vinho, o azeite e a farinha antes de levar tais produtos para Lisboa . Estranhamente o vinho parecia agua, o azeite tinha uma consistência mais ténue e amarela, e de certeza que o que estava no arcão não era farinha.
Foi então que mandou chamar o seu amigo Boticário de Midões, homem de ciência, habituado a conhecer , provar e comprovar a natureza dos produtos, que o ajudaria certamente a descobrir que raio de substâncias estavam armazenados no seu celeiro.
Foi então que o Boticário lhe disse que não havia ali milagres ou feitiços, porque o que estava no tonel era de facto agua, o que estava na pia era óleo de girassol, e o que estava no arcão era gesso e pó de talco, e que tais produtos só ali estavam porque cada uma das famílias tinha pensado que se levassem um almude de agua para o tonel, um cântaro de óleo para a pia do azeite ou um alqueire de talco para o arcão, ninguém iria dar pela diferença, a terra era fértil, mas gente com tal esperteza e finura era de se lhe tirar o chapéu, era maior a riqueza matreira de tal gente do que a terra poderia dar.
Com estes factos perdeu Randulfes alguns dos favores do Rei ,ficando o Boticário de Midões como Administrador da Segurança Alimentar e Económica da Pampiloza (A.S.A.E.P.).
Quanto ao resto das famílias do lugar, descendentes somos, e com outros descendentes nos cruzamos todos os dias,alguns dos quais até escrevem em Blogues.
*Estória Randulfiana tendo como inspiração um conto de Jorge Bucay.
2 Comments:
Brilhante Rand!
E pensar que há tanta populaça ávida de frutinha mastigada!
Aquela dos "sub-primos do Randulfes", teve grassa...
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