Disponível para Amar


“Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto”
Fernando Namora
Raras são as obras que nos envolvem de um modo tão peculiar que encontramos dificuldade em expressar-nos perante a sua magnificência. Acabo de reler “A Espuma dos Dias” obra que, nas palavras de Queneau é o mais pungente dos romances de amor contemporâneos. É, no mínimo, uma obra singular, uma visão ímpar do Amor através da pluma caprichosa de Vian. É indubitavelmente, na sua imensidão criativa, um pequeno hino ao Amor.
Chloé é um desejo, uma mulher sonhada que emana de um arranjo musical de Duke Ellington, num momento de profunda inspiração; Colin é um jovem, disponível para amar, que numa soirée oferecida pela sua amiga Ísis, e após confidenciar ao seu rato que estaria disposto para o Amor, se torna o artesão da sua ilusão, da sua paixão e vítima do seu próprio sonho: Chloé, durante as núpcias, adoece e é-lhe diagnosticado um nenúfar que cresce no seu interior incessantemente. Por Amor, Colin abdica do mundo onírico e de luxúria em se sempre vivera e enfrenta a dura realidade da vida. Esta transformação idiossincrática da personagem é algo de atrozmente insuportável.
Contemplo, por momentos, fixamente o meu velho narguilé que pelo jogo de sombras e luz que o beijam lhe incrementam o seu charme e exotismo: está feito o convite; será mais um serão de cumplicidade. Eu aceito! Vem-me à memória uma soberba discrição de Eça: “as tendas abertas por diante deixavam ver os grandes lustres pendentes, os tapetes de Meca e de Damasco, onde se encruzavam as soberbas figuras dos xeques, fumando gravemente o narguilé”. Julga-se que tenha surgido no Oriente; julga-se, apenas. Olho de soslaio para minha tabaqueira: opto por um muessuel Starbuzz de menta-verde. Sinto que é a melhor escolha. Inalo profundamente este fumo que me consome e repouso, consumido. Como é bom estar contigo, meu velho narguilé.
É nestes momentos de íntima tranquilidade que imagino a beleza rara de Chloé contrastando com o desespero exacerbado de Colin na eminência da sua perda, sobrevivendo à espuma dos dias; sentimento angustiante esse de perder qualquer coisa que amamos, Colin! Este tentará em vão tudo para inverter o desenrolar da narrativa mordaz de Vian que não poupará Chloé ao Limbo e Colin ao desespero do amante eterno. Imagino-o perdido no fim, já fora da sua personagem, num monólogo insuportavelmente triste a declarar: desde que te perdi, o palco está deserto como o mundo e o mundo está deserto como um palco vazio…* enquanto inalo consumido este fumo que me consome e repouso, profundamente, nesta espuma dos meus dias.
* Jacques e o seu Amo, M Kundera